A menos de quinze dias de completares 95 anos encontraste o caminho de volta para a Ditinha. Sei que é a melhor prenda que podias ter mas nem isso apaga a vontade de falar contigo mais uma vez, de te chamar Nato e discutir o nosso benfica. Quando os meus pais me disseram que estavas prostrado há dois dias quase sem reacção, soube que algo não estava bem. Isso não eras tu. Tu reagias a tudo, reclamavas com as enfermeiras, discutias com os médicos a insensatez de te manter internado, logo tu que tinhas uma casa para onde ir e de que cuidar. Sempre dissemos que nos ias enterrar a todos, mas hoje perdeste a força que te caracterizava. Devia estar preparada mas não estava, foi um choque, foi demasiado depressa. Ainda queria ouvir a tua voz mais uma vez a lembrar-me 'o teu avô está velho'.
Agora recapitulo alguns bons momentos e memórias gloriosas... os dias no campismo... a educação rigorosa e a teimosia maior de sempre... os almoços de domingo por estradas intermináveis com relatos de futebol a acompanhar e que me puseram a gostar de bola... os discursos característicos e imensos... o chapéu e vara de fada que improvisaste para mim num carnaval... as comemorações e o 'sai da frente da televisão'... o traje académico que comprei só por vossa causa para a foto que tanto querias... o teu canto de tenor... o JN comprado religiosamente... o cata-vento que me fizeste em Angeiras... o teu escritório na rua do almada... as nódoas nas gravatas... a visita ao hospital quando fui operada... a tua letra desenhada... quando tirei a carta e me pediste para te levar a dar uma volta... o orgulho quando falavas de qualquer um dos netos... a tua alegria imensa quando te visitava de surpresa... e o sentimento quando me abraçavas e dizias 'minha neta lembra-te sempre que o avô gosta muito de ti'.
Com todos os defeitos que tinhas, sempre foi um orgulho ter o teu nome. E hoje, como sempre, espero que saibas disso e que descanses com a certeza que a tua neta nunca te vai esquecer.